segunda-feira, 12 de junho de 2017

Santo Cristo VII - rua Santo Cristo

data original de postagem: 23/11/2012


Mais uma vez, recorro às fotos de Raul Félix para um post. Tenho andando muito sem tempo, por conta de várias obrigações, então lanço mão das imagens deste ávido fotógrafo, que em sua página no site Panoramio tem um verdadeiro banco de dados sobre os imóveis antigos do Rio de Janeiro - recomendo a visita!



Neste pequeno imóvel temos uma decoração mais "fechada": apenas um padrão para cercadura e um padrão para área principal. Isto resulta numa decoração muito harmoniosa, e se não fosse assim, dadas as pequenas dimensões desta fachada, o resultado poderia ser caótico.

Arrisco dizer que estes azulejos são franceses. O azulejo de cercadura pode ser encontrado nos catálogos de 1898 e 1904 da fábrica Choisy-le_Roi, França. Azulejos de padrão e cercadura desta fábrica francesa podem ser encontrados em outras construções do Rio de Janeiro [>>].

Os azulejos de padrão ainda não consegui encontrar em nenhum catálogo, porém, como possuem extamente o mesmo comprimento dos azulejos de cercadura, há uma possibilidade de que sejam também franceses. Eles também são encontrados no Solar Real, em Santa Teresa [>>].



Além dos azulejos, a decoração conta apenas com grades de ferro fundido, de um modelo extremamente comum no Rio de Janeiro pelo final do século XIX (aqui na minha rua mesmo há 4 casas comerciais antigas com este padrão de grade), o quase obrigatório medalhão com a data da construção do imóvel, e cantaria em pedra-de-galho. Este termo eu acabei de aprender na foto do Raul Félix, e copio aqui a explicação que ele generosamente nos deixou lá.
A pedra mais comum nos morros da Serra da Carioca (Pão de Açúcar, Morro da Viúva, Pedreira de São Diogo, etc. ) é o gnaisse, embora o granito também ocorra em vários pontos. São ambos constituídos dos mesmos elementos - mica, feldspato e quartzo - porém no gnaisse estes se encontram orientados, formando texturas. No caso das serras do centro do Rio de Janeiro, predomina o denominado, em função de sua textura, gnaisse facoidal, ou lenticular. Os mestres da arte da pedra de cantaria, ou canteiros - ofício desaparecido em nossos dias -, denominavam esta pedra "Pedra-de-Galho". É possível que esta denominação, de origem portuguesa, servisse originalmente para denominar outras pedras texturadas. Há também a denominação olho-de-sapo, menos corriqueira e aparentemente exclusiva daqui.


Alguém deveria avisar ao proprietário do imóvel que esta "baguncinha" não é legal. Ok, não tem mais todos os azulejos? Ao menos recoloca no lugar certo os que ainda estão lá! O ideal era mandar fazer réplicas, para completar o padrão, mas pelo estado do imóvel, ele não está em mãos de pessoas cuidadosas, ou talvez com posses para encomendar réplicas, infelizmente!

5 comentários:

  1. Fábio

    Há muito que aqui não venho. Avariei o teclado do computador, e enfim, andei a actualizar o meu blog em computadores alheios e fiquei sem tempo para comentar os blogues vizinhos.

    Mais uma vez aqui noto um fenómeno. Os azulejos são holandeses, mas a forma de os colocar e a arquitectura são portuguesas. Essa síntese carioca ou brasileira acaba por ser original e não sei até que modo não inspirou a própria arquitectura portuguesa, pois havia no final do século XIX e inícios do XX um vaivém de gente entre o Brasil e Portugal. Já terás ouvido falar nas célebre "casas dos brasileiros" em Portugal, construídas por esta época-

    Enfim, talvez este teu trabalho, seja o primeiro alicerce para um estudo comparativo entre a azulejaria nas cidades portuguesas e brasileiras nos finais do XIx e príncipios do XX

    Abraços alfacinhas

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    1. Exato Luis!
      Já disse isso por aqui várias vezes: os azulejos podem sem em maioria holandeses e franceses, mas a forma de usá-los é totalmente luso-brasileira! Afinal, eram imigrantes lusitanos ou a primeira geração de seus descendentes que construiram estas casas e estabelecimentos comerciais, e o desejo provavelmente era ter aqui um pouco do que deixaram (ou conheceram) por aí. A origem dos azulejos era apenas uma casualidade comercial.
      O curioso é que no norte e nordeste do país os azulejos são majoritariamente (ou 100%) portugueses. É aqui no Rio, por algum motivo comercial que desconheço, que houve este predomínio holandês e francês na importação de azulejos.
      abraços!

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  2. Grande Fábio,

    Existe uma razão comercial muito significativa para que os azulejos encontrados no Rio de Janeiro sejam predominantemente provenientes dos portos da Europa Setentrional. É que a grande maioria dos azulejos que vemos aqui, e também dos prédios onde estão colocados, procede da segunda metade do século XIX e do início do século XX, período que corresponde ao apogeu da cultura cafeeira fluminense. O café, nossa grande fonte de divisas então, era negociado diretamente com as nações do Mar do Norte, sem a interferência de Portugal, e os azulejos, já muito queridos dos brasileiros desde o período colonial, vinham como lastro valioso nos porões dos navios. Não tenho dúvidas de que, se ainda tivéssemos no Rio de Janeiro muitos imóveis coloniais (hoje praticamente só temos as igrejas), teríamos muitos prédios com azulejos portugueses, tal como ocorre em Salvador, Recife ou São Luiz. Após a independência nosso comércio com Portugal decaiu drasticamente, mas não se alterou o gosto, nem a tradição, nem o fluxo de pessoas.

    Abraços.

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    1. Obrigado Raul! Sim, faz muito sentido o que você afirmou. Eu achava que realmente estaria relacionado com a independência, mas achava que seria mais pelo movimento de aversão à Portugal que houve após a independência, e mais forte ainda após a proclamação da República. Me escapava este detalhe do comércio com os países do norte.
      Há historiadores que o declínio das cerâmicas portuguesas (e da indústria daquele país como um todo) após a fuga da família Real para o Brasil é que fez o comércio do Brasil buscar novos fornecedores. Mas há quem não concorde com esta hipótese, pois em Portugal não houve interrupção no uso do azulejo em fachadas, pelo contrário, foi justamente no século XIX que esta prática se tornou mais intensa.
      abraços

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  3. Muito interessante

    Apreciei muito a explicação do Raul e a resposta do Fábio. Já aprendi coisas novas por aqui.

    Um abraço

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