sábado, 15 de julho de 2017

Centro XXVIII - rua Gonçalves Ledo

postagem original: 30/12/2012


Mais uma vez, apresento um post onde tive que deixar de lado meu preconceito. Quando fotografei estes azulejos, o fiz apenas pela "obrigação" do registro, pois eu na verdade não me encantei muito com eles. Me pareciam "azulejos de banheiro", não me pareciam dignos de uma fachada. E ainda por cima me pareciam recentes demais, alguma coisa como segunda metade do séc. XX.


As fotos ficaram aqui por alguns meses, até que recentemente eu comecei a encontrar através do Google Images azulejos portugueses do início do séc. XX com este tipo de aparência. E aí me dei conta que além do azulejo de padrão principal contar com uma cercadura, o que como já comentei antes não é comum na produção nacional de meados do séc. XX, a forma cuidadosa como ele foi aplicado, como notamos melhor na foto abaixo, formando um friso emoldurado a cada intervalo dos ornamentos abaixo da cornija, me parece indicar que este azulejamento não aconteceu em meados, mas muito mais provavelmente no início do séc. XX.



Como os azulejos estão no segundo andar do sobrado, não me foi possível medí-los, o que é sempre uma pena. Outra coisa que lamento é não haver, ou não haver mais, o registro com o ano de construção do prédio. Mas acho que ele pode ser considerado da década de 1900 ou 1910, como a grande maioria dos imóveis desta região o são.



Atualização em 15/07/2017

Recentemente encontrei o que me parece quase certo ser a cercadura do conjunto de azulejos do imóvel em questão, em um catálogo da Societe Anonyme de la Faiencerie de Nimy-lez-Mons, Bélgica, catálogo este editado por volta de 1900:



Uma coisa que não se nota muito bem nas fotos, e que só percebi hoje, depois de ter a imagem do catálogo, é que este imóvel, além de ter a cercadura exatamente alinhada com a grade dos azulejos, o que não é comum por aqui, ainda por cima possui o mesmo canto de arremate que está no catálogo:


Hoje  Mario Baeck, Doutor na Ghent University da Bélgica, especialista em azulejos e ladrilhos hidraulicos industriais belgas, me enviou esta página de catálogo da Boch Frères:


Que é virtualmente idêntica ao que vemos no catálogo da Faiencerie de Nimy-lez-Mons, sendo praticamente impossível, ao menos nessa resolução da cópia do catálogo da Boch Frères, perceber qualquer diferença do catálogo daquela fábrica. De toda forma, me parece de uma vez por todas, que é quase certo que estes azulejos encontrados no Rio sejam belgas.



Agora o fato mais curioso: no andar térreo do prédio foi usado um padrão decorativo muito mais "carregado", com desenho intricado e o colorido intenso. O interessante é notar que o azulejo de cercadura de certa forma ainda traz uma lembrança do tradicional tema que eu chamo de "haste e folhas", pelo meu desconhecimento do verdadeiro nome do padrão, que encontramos em outros azulejos mais antigos, tanto portugueses quanto holandeses.

As fotos infelizmente estão bem ruins, pois além de ser já final da tarde, os azulejos estavam abaixo de um toldo, então havia muita sombra encobrindo os azulejos.

Acho importante chamar a atenção para o fato do azulejo de cercadura não ter metade da altura do azulejo de padrão principal.

 


exemplo do padrão "haste e folhas" em um azulejo de cercadura holandês.



Atualização em 15/07/2017

Estes azulejos do piso térreo já foram identificados, veja aqui >>.

2 comentários:

  1. Continuo a achar que devias tentar publicar pelo menos uma súmula, do que por aqui vais escrevendo.

    Um abraço

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    Respostas
    1. Olá querido amigo!
      Quem sabe isso ainda não acontece? Duvido muito de algo nesse momento fundo o poço que o país está, mas sempre fica a hipótese e a vontade. No meio tempo, vou aprofundando a pesquisa e melhorando os seus resultados.
      abraços!

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