segunda-feira, 12 de junho de 2017

Centro XLIII - rua do Teatro

data da postagem original: 11/09/2013


Há muito que tenho esta foto acima, obtida em algum outro blog, já havia passado incontáveis vezes pelo "imóvel" (entre aspas, pois só resta a fachada, e mais nada além do vazio por trás), mas NUNCA estava com a máquina fotográfica. E toda vez que ia naquela área de dia, me esquecia de levar a câmera. Hoje já estava na porta, e finalmente... ESPERA! A fachada da rua do Teatro! Voltei, e FINALMENTE estão aqui as fotos.

Como disse, já passei várias vezes pela fachada, e mesmo hoje, fotografando, achei que era algum padrão de folhagem. Só em casa que capotei com a surpresa!



Fiquei boquiaberto, de queixo caído, e todas as outras expressões de espanto e admiração que vocês possam conhecer. JAMAIS pensei que um dia acharia este padrão tão particular ainda em um imóvel. Bem, quase não achei, pois esta fachada está lá assim, abandonada, há muitos anos, sem cuidados, sem manutenção, sem ser recuperada e aproveitada com uma nova construção por trás. Já poderia ter caído, e não se faz nada.

Este padrão holandês eu já conhecia das minhas aulas de azulejaria no mestrado de arqueologia que fiz como ouvinte, com a professora Dora Monteiro, mas nunca havia visto um inteiro, e agora estou muito feliz em saber que, mesmo que precariamente, há dezenas dele numa fachada!

Abaixo vemos os cacos que eu conhecia até hoje. E já achava o desenho lindo! Mais abaixo, o padrão em um catálogo da fábrica holandesa "Koninklijke Fabriek J. Van Hulst", de Harlingen.



Certamente este padrão jamais foi pensando para estar na fachada do segundo pavimento de um imóvel. Sabemos que holandeses não recobrem fachadas externas com azulejos. Este azulejo certamente foi pensando para uma lareira ou parede de cozinha ou sala de jantar. É para ser visto de perto. Mas a transformação que o padrão sobre à distância não deixa de ser engraçada.


Atualização em 13/9/2013

Hoje Johan Kamermans me enviou um email com várias informações sobre este padrão, que se chama "Vrouwenblad" (mulher e folhagem), de forma que, como ele mesmo apontou em seu email, eu não estava de todo errado ao de longe apenas perceber um padrão vegetalista.

Sabe-se que este padrão foi produzido não apenas em Harlingen, como eu já mencionei acima, mas também em Utrecht (um grande centro produtor), na fábrica Schillemans, entre 1870-1900.


Já no terceiro pavimento encontramos um azulejo talvez mais recente, pois é visivelmente industrial, provavelmente um transfer print. Reparem no contrarrelevo do tardoz deixado pelos azulejos que já cairam. Isto não era comum em azulejos de meados do século XIX.


Curiosa também é esta cercadura, que não é de meia altura, mas sim quadrada e do mesmo tamanho do azulejo de padrão.



Além disso, vejam a comparação abaixo: eles são bem menores do que o azulejo holandês.


Se considerarmos que o azulejo do segunda pavimento tem os habituais 13,2 cm dos azulejos holandeses, por comparação estes azulejos industriais teriam aproximadamente 10 cm. Mas talvez eles possam ter perto de 11x11 cm, já que não foi possível medi-los diretamente, então estes poderiam ser também franceses, e como sabemos, em prédios da virada do século XIX para XX há uma grande quantidade de azulejos franceses.



Atualização de 25/05/2017

Segundo o livro "Azulejaria em Belém do Pará - Inventário – Arquitetura civil e religiosa" (2016), de Dora Alcântara, Stella Brito e Thais Sanjad, estes azulejos (padrão e cercadura), teriam sido produzidos na Faïencerie de Choisy-le-Roi, França. Ainda segundo o inventário neste livro, estes azulejos teriam 10,4 x 10,4 cm, ou seja, quase o tamanho que eu havia extrapolado a partir dos azulejos holandeses.




Curiosamente, embora em verde, em Belém do Pará são encontrados em conjunto o mesmo par de azulejo de padrão/cercadura.

Atualização de 12/06/2017

Hoje encontrei online um exemplar em vermelho da mesma cercadura usada nesta fachada:




E como podemos ler em seu tradoz, ele realmente foi produzido na Faïencerie de Choisy-le-Roi, França, o que comprova a afirmação de Dora Alcântara, Stella Brito e Thais Sanjad.

Azulejos de padrão e cercadura desta fábrica francesa podem ser encontrados em outras construções do Rio de Janeiro [>>].

Como em quase todos os casarões antigos no Rio de Janeiro, encontramos em um canto um festival de remendos, com até mesmos azulejos que sequer vieram do próprio prédio.

Ah! E claro! Fiquei tão absorvido pelo original padrão do azulejo principal, que esqueci de comentar que a cercadura usada é uma velha conhecida deste blog, do padrão "Coluna e Fita" (o que não é um nome oficial, mas sim um nome que eu mesmo inventei por falta de outro melhor).


15 comentários:

  1. Respostas
    1. Realmente são lindos. Só fico preocupado com o descaso com esta fachada. Qualquer dia cai.
      abraços

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  2. Realmente, uma surpresa. De longe não dá nem para imaginar um desenho tão curioso. Mas acho que o efeito à distância também é muito bonito.

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    1. Olá Raul,
      Sim, também acho que à distância o efeito é muito bonito. Sempre achei que eram ramos entrelaçados. Só queria destacar o fato de que um desenho tão cheio de minúcias certamente não foi pensando para fachadas, mas sim para estar próximo aos olhos.

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  3. Olá Fábio
    Também fiquei surpreendida quando cheguei à foto que mostra em pormenor o azulejo de padrão holandês.Muito bonito e sem dúvida para ser apreciado de perto.
    Gostei da designação que arranjou para a cercadura.Muito óbvio e prático.Sobre a última fotografia, aqui em Portugal, também tenho encontrado situações idênticas, em que os azulejos são colocados com a única a preocupação de preencher espaços.Antes isso do que irem para o lixo.
    Beijos

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    1. Olá Maria Paula,
      Certamente! Antes os remendos misturados (em Lisboa fotografei alguns que de tão curiosos parecem até uma colagem de arte) do que irem para o lixo, ou deixar os buracos, pois daí penetra água da chuva, e mais azulejso cairão.
      b'jinhos!

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  4. Curioso o desenho.
    Ao longe não se percebe, e, por isso mesmo, tal como dizes, seguramente não foi produzido para ser visto a grande distância, pois a riqueza do desenho merece que seja percebido nos seus detalhes.
    No outro dia passei por uma das milhentas de ruas com fachadas de azulejo desta cidade e reparei que dos padrões que vi aplicados não conhecia praticamente nenhum deles!
    Eu também tenho uma má memória visual quando se trata de padrões anónimos, sem nada que os faça salientar do entorno.
    Continuas com estes achados fantásticos.
    Manel

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    1. Olá Manel
      Pois é, como sabemos, os holandeses não faziam seus azulejos para cobrir fachadas, mas sim paredes internas das casas, e talvez por isso sejam tão precisos, pois seriam vistos de perto. A prática é cobrir fachadas externas é marcadamente lusobrasileira.
      abraços

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  5. Amigos,
    Graças a uma grande contribuição hoje de Johan Kamermans, temos agora várias novas informações interessantes sobre os azulejos desta postagem, de forma que convido-os todos a rever a postagem. As novas informações estão destacadas em marrom, antecedidas pela data da atualização.
    abraços!

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  6. Que bela descoberta o Fábio fez! E que rico intercâmbio se estabeleceu com o perito holandês!
    Os azulejos são realmente lindos e invulgares, não é comum encontrar rostos como motivo decorativo em azulejo de padrão.
    Também gosto muito desta cercadura que o Fábio batizou. :)
    Obrigada pela partilha e pela interessante informação.
    Bjos

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    1. Cara Maria Andrade,
      É muito bom vê-la novamente por aqui. Eu tenho muita sorte com elenco dos meus seguidores e colaboradores. E pensar que tudo isso começou quase como um passatempo, uma forma de acalmar a saudade de Portugal!
      b'jinhos

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  7. Belíssimo achado Fábio! O padrão visto de longe realmente aparenta ser outra coisa, mas é como você disse, eles eram para uso interno, como recentemente vi um lavatório cercado pelo “Estrela de Hamburgo”, lembrei imediatamente de você, por aqui esse estilo não “pegou” muito, a maioria das fazendas que já visitei só possuem azulejos até metade do pé direito, uma pena. Grande Abraço.

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    1. Olá Mateus,
      Certamente uma fachada completamente azulejada é algo que brilha aos olhos, mas o uso do silhar é algo que eu acho também muito bonito, pela forma que redimensiona o espaço, criando uma parte inferior que nos envolve mais.
      abraços

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  8. O município do Rio de Janeiro deveria financiar a edição de uma obra tua, pois tens feito uma recolha espantosa. Fico sempre admirado com a forma sistemática com que vais estudando a azulejaria da velha capital brasileira.

    Um abraço

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    1. Obrigado, caro amigo! Infelizmente estamos todos falidos do lado de cá. Financiamento só para os aliados políticos, e neste momento, no Rio de Janeiro, isso significa Igreja Universal. Tempos sombrios! A idade média está ali, logo à esquina!
      abraços

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