quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Catumbi I - rua do Catumbi

Ontem fiz um "tour" fotográfico pelo bairro do Catumbi, para fotografar 14 imóveis com azulejos antigos. Na verdade, fui para fotografar 10 imóveis, mas no caminho encontrei mais 3 (bem simples, apenas com faixas de azulejos retangulares horizontais chanfrados), e graças à dica do amigo Raul Félix, pude fotografar mais um que eu não conhecia, que por pouco me escapou.

Resolvi começar pela rua com o mesmo nome do bairro. Este bairro, um dos mais antigos do Rio de Janeiro, que nas últimas (muitas) décadas é feio e abandonado pelo poder público, outrora teve melhor sorte. Em fins do século XIX, a região era elegante com sobrados de classe média alta, como referido nas obras do escritor Machado de Assis. Mas no século XX, depois de rasgarem o bairro ao meio com viadutos e pistas de acesso ao túnel Santa Bárbara, da construção de um imenso presídio, somado ao fato de no bairro existir um grande cemitério, ele foi relegado a um mero corredor de passagem entre a zona norte e zona sul, e acabou marginalizado, triste, e abandonado. A única coisa nova que o bairro recebeu foi o Sambódromo, na década de 1980, e que ano passado foi duplicado.

Voltando ao que interessa, aqui estão as fotos de dois imóveis comerciais bem simples na rua do Catumbi, quase dois galpões, que apresentam azulejos em tons de verde e verde-azulado.




O primeiro é de 1909, ou reformado em 1909. O segundo não tem data na fachada, mas como é vizinho de parede do primeiro, acredito que eles sejam mais ou menos da mesma época. Por conta da estranha colocação dos azulejos, que ocupam apenas uns pequenos detalhes, algo me faz pensar que estes azulejos não são originais da construção dos imóveis, ou talvez a grana tenha sido curta, e o projeto foi simplificado, ou era simples desde o início, pois os espaços são de um tamanho tal que os azulejos encaixam sob medida, sem precisar de cortes ou adaptações.

De toda forma, é um uso comparativamente "pobre" ao que normalmente encontramos em prédios antigos com fachadas azulejadas, e até mesmo neste bairro, pois em uma outro postagem podem ser vistos oito sobrados ricamente azulejados, a apenas um quarteirão dali [veja aqui >>], e uma outra casa um pouco mais distante, mas ainda no mesmo bairro [veja aqui >>]. Isso sem contar o imóvel comercial triplo praticamente ao lado destes dois, que teve sua fachada e arquitetura desfiguradas [veja aqui >>].


Abaixo vemos um close-up dos azulejos de padrão e de cercadura.


De toda forma, como vemos na ficha abaixo, onde pude verificar que os azulejos de cercadura são belgas, da fábrica Boch Frères, em Louivière, o azulejos são da virada do século XIX para XX, então são até mesmo um pouco anteriores à construção ou reforma dos imóveis.

ficha online de um site de comércio de azulejos e outras antiguidades.


Eu não havia encontrado o azulejo de padrão em nenhum site, mas desconfiei que talvez fossem também belgas, por causa da cor, dimensões, design e técnica de impressão (embora haja azulejos alemães muito parecidos, e com as mesmas dimensões). Consultei o Mario Baeck, que entre outros títulos é editor do periódico da Tiles & Architectural Ceramics Society (TACS) e editor do boletim do Círculo de Azulejos Cerâmicos Europeu (E.C.T.C.), e ele me confirmou: são azulejos belgas, também da fábrica Boch Frères.

Aos poucos, vão aparecendo mais azulejos de nacionalidades variadas aqui no Rio de Janeiro, à medida que vou expandido a pesquisa.

Atualização de 2/8/2016

Hoje o caro colaborador  Mario Baeck mais uma vez contribuiu para esta postagem, enviando uma pracha de um catálogo da fábrica belga Boch Frères circa 1900, que poderá ser vista nesta postagem complementar sobre os azulejos destes imóveis do Catumbi [>>].

4 comentários:

  1. Quem quiser saber um pouco mais sobre o bairro do Catumbi, ver fotos antigas e ler histórias sobre o local e seus moradores, pode visitar o site que eu e meu amigo Chico montamos em 2003. É verdade que já não atualizamos desde 2006, mas as informações que lá estão ainda são bastante interessantes.

    http://www.bairro.catumbi.nom.br/

    Abraços,
    Raul.

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  2. O segundo imóvel deve certamente ter tido mais andares, pois o limite superior de sua fachada não é uma platibanda e sim um trio de sacadas.

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    1. É verdade, Raul; isto não tinha me ocorrido. E veja como o prédio à direita dele ainda hoje apresenta a "cicatriz exposta" da remoção do segundo pavimento deste imóvel.
      abraços

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